O PIB da criatividade

O PIB da criatividade

Setores que combinam criatividade e diferenciação de produtos e serviços despontam pelo potencial de geração de valor, revigorando a velha matriz produtiva. Desvendar os mecanismos e as demandas da chamada economia criativa canaliza ações de governos e instituições. Atores de diversos segmentos dessa nova indústria demarcam seu lugar, acionam instrumentos próprios de negócios e podem reorientar o jeito de acessar crédito.
No mundo dos nativos da economia criativa – alguns também falam indústria criativa -, o que menos importa é o tamanho do Produto Interno Bruto (PIB), a maior medida de grandeza de uma nação, estado ou município. Enquanto o mundo da velha economia tenta dimensionar o que os novos produtores de valor estão gerando, os antenados do planeta criativo já definiram suas estratégias. Se não tem acesso a crédito, busca-se alguém que aposte na qualidade da ideia e do que ela pode render. Se não tem canal de venda, una-se a outros iguais e forme a rede de comercialização. O que é comum é o que todos os interlocutores dessa matriz que fala a língua da era da tecnologia mais repetem: vale a experiência.
Esse ambiente, que setores de governos, organizações empresariais e institutos de análise tentam decifrar, está cada vez mais se pulverizando. Segundo a Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (Unctad), braço das Nações Unidas, a chamada economia criativa responderia por 7% do PIB global. E o que mais interessa é a velocidade do crescimento das trocas globais: 16% a 20% ao ano. No Brasil, que é considerado o quarto maior mercado do setor, a fatia estaria entre 6% e 7% da riqueza gerada. No Rio Grande do Sul, um estudo inédito da Fundação de Economia e Estatística (FEE) dimensionou, com dados de 2010, que o PIB criativo na indústria e no comércio varia entre 13,7% e 6,2%, respectivamente.
Nos serviços, que não foram captados porque a metodologia se alimenta de dados fiscais do ICMS, o coordenador do estudo, o economista e professor de Economia Internacional da Ufrgs Leandro Valiati, avalia que a participação ultrapasse os dois dígitos. Neste setor, o levantamento revelou ainda que o Estado têm participação entre 10% a quase 15% dos empreendimentos existentes no País (ver página 10). “O foco foi entender o modelo de negócio dos segmentos criativos e definir uma concepção para dimensionar sua participação no valor adicionado”, esclarece Valiati, que elucida: “O que se percebe é que não há um único canal de negócio.”
O trabalho mapeou os segmentos e as atividades que, no interior dos macrosetores, trazem o fator criativo. Hoje, países pelo mundo adotam a concepção da Unctad, que engloba no caldeirão desde artes, teatro, música, audiovisual, games, arquitetura, gastronomia, artesanato e turismo cultural. E o conceito para calibrar o lugar de cada componente nessa diversidade segue a definição: “setores cujo processo produtivo seja baseado na imaginação, criatividade, habilidades e no talento de profissionais”. E tudo alinhavado por uma constatação. “Como a transformação pela tecnologia está mudando o capitalismo”, provoca Valiati.
A secretária-adjunta da pasta de Ciência, Inovação e Desenvolvimento Tecnológico (SCIT), Ghissia Hauser, enxerga o que chama de inovação por meio da criatividade. “Temos de densificar esse setor pelo seu poder de agregar valor”, observa Ghissia, que promete mais recursos para fomentar pesquisas e empreendedores em 2014.
O presidente da Agência Gaúcha de Desenvolvimento e Promoção do Investimento (AGDI), Ivan De Pellegrin, lembra que o design é sempre o componente da diferenciação. “O maior potencial de captação de valor está em design e gestão da marca, e os dois conversam com a indústria criativa”, ressalta Pellegrin. Na busca por apoiar os emergentes, a AGDI, junto com diversas áreas do governo estadual – das áreas de Promoção ao Desenvolvimento, Cultura à Ciência e Tecnologia – acionou instrumentos depois que a nova economia virou um dos tentáculos da política industrial.
“Difícil identificar na cadeia de produção o que é só elemento da indústria criativa. O princípio que adotamos é que inovação é o principal drive de competitividade, e é preciso levar a setores estratégicos as condições para avançar, o que inclui conhecimento e criatividade”, conecta o presidente da AGDI.
E Pellegrin cita que, enquanto ramos tradicionais como o de calçados e móveis já incorporaram essa estratégia, trazendo para dentro de seus produtos o fator design e marca, outros como o da agroindústria precisam se mexer. No reduto industrial, os Arranjos Produtivos Locais (APLs) canalizam as ações para carregar o fator dos componentes da cultura e da arte. Nesse caso, ramos como gemas e joias, têxteis e móveis estão sendo favorecidos com apoio financeiro e consultorias.

 
Fonte: Jornal do Comércio